Carybé: A Estética como Organização Social e Espacial
- TARCILA GAMA

- há 6 dias
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A obra de Carybé promove uma profunda ressignificação religiosa, funcionando como uma ponte entre o cotidiano brasileiro e a "África mítica". Como o próprio artista descreveu em 1951, o Candomblé não está restrito aos terreiros; ele transborda para a vida:
"[...] estará presente na mesa rica e pobre, nos arvoredos sagrados, nos pés de Loko, nas encruzilhadas onde moureja Exu, nos quindins das baianas, nas igrejas, nos mercados, nas folhas da mata." (CARYBÉ, 1951).
A Dialética de Balogun na Prática de Carybé
Essa onipresença do sagrado na obra de Carybé dialoga diretamente com a tese de Ola Balogun. Ao permanecer 50 anos no Brasil, Carybé operou em dois tempos: a leitura e a releitura.
A Leitura (O Contexto): Carybé compreendeu que, para a arte atingir um caráter universal, é preciso primeiro mergulhar no contexto sociocultural. Como aponta Balogun, a universalidade exige que o espectador esteja disposto a "esquecer, por alguns instantes, os critérios que herdamos dos nossos próprios antepassados" (BALOGUN, p. 38). Carybé fez isso ao despir-se do olhar eurocêntrico para abraçar a cosmologia iorubá.
A Releitura (A Técnica): A releitura parte da capacidade do artista em "abstrair" essa realidade para o suporte físico. Aqui reside a genialidade da sua denúncia imagética: embora utilizasse materiais alheios à tradição africana clássica (como o nanquim e a pintura a óleo), a alma da sua produção permanecia fiel à matriz africana.
O "Estranho" que se torna Intérprete
Ao contrário de um "estranho no ninho" passivo, Carybé assumiu um papel político. Ele reivindicou o reconhecimento do Candomblé como religião e integrou-se às políticas afirmativas do movimento negro. Sua arte não é apenas contemplativa; é um instrumento de visibilidade.
Enquanto a citação inicial de Balogun alerta que uma obra pode perder o poder de comunicação ao mudar de quadro, Carybé fez o oposto: ele criou um novo quadro visual onde o negro não é o "outro", mas o protagonista da identidade nacional. Ele utilizou a técnica ocidental para imortalizar o que é ancestral, provando que a "linguagem universal" da arte nasce, paradoxalmente, da compreensão profunda do local e do específico.
A Moda como Sistema de Signos e Resistência Corporal
Deste modo, podemos averiguar também a profunda inferência da estética afro-brasileira na moda, compreendendo-a como uma linguagem não verbal que opera os "cortes diferenciais" mencionados por Lévi-Strauss. Na obra de Carybé, o vestuário não é um adorno, mas uma armadura de identidade.
1. O Tecido como Texto
Se a musicalidade é uma arte espacial, a moda é a sua manifestação tátil. A forma como Carybé retrata o planejamento das baianas, o engomado das rendas e o torso amarrado, revela uma organização social rigorosa. A moda aqui se torna um valor ativo: ela distingue o iniciado do leigo, o sagrado do profano. É o que Lévi-Strauss chama de "selo da permanência"; através da repetição dos padrões de cores e amarrações, a cultura negra impõe sua presença em um meio que tenta torná-la invisível.
2. A Crítica à Apropriação e a "Pureza" da Branquitude
Assim como os "ocidentais fervorosos" consomem o Jazz sem reconhecer a genialidade do improviso negro, o sistema de moda ocidental frequentemente se apropria de búzios, turbantes e estampas ancestrais como "tendências sazonais".
A inversão de Carybé: Em sua obra, a moda é retratada como soberania. Ele mostra que o uso do branco (o pano da costa, o ríchelie) não é uma busca pela "pureza" nos moldes europeus, mas uma conexão com o orixá, uma pureza de preceito e fundamento.
3. A Moda como Mensagem Significante
Ao aplicarmos a "grade" de decifração sobre o vestuário retratado por Carybé, o que antes parecia aos olhos do "estranho no ninho" como um traje folclórico, revela-se como uma complexa engenharia social. A moda afro-brasileira é, portanto, uma ferramenta de interferência direta no meio:
Ela comunica a origem (nação).
Ela estabelece o tempo (o ciclo das festas).
Ela demarca o espaço (o corpo como território ocupado pelo divino).
Conclusão
Portanto, a inferência na moda reforça que a arte de Carybé é totalizante. Ele entende que a "mensagem significante" da cultura negra no Brasil é transmitida pelo som (música), pela cor (pintura) e pela forma envolta no corpo (moda). Onde o olhar ocidental vê o "fluxo indistinto" do exótico, a lente de Carybé e a teoria de Lévi-Strauss revelam um sistema sofisticado de resistência cultural que molda o cotidiano brasileiro até os dias atuais.
Essa organização social e espiritual através da forma encontra eco na moda contemporânea brasileira. Estilistas como Goya Lopes, com sua estamparia narrativa, e Isaac Silva, que transforma o 'Axé' em alta-costura, continuam a aplicar a 'grade' de decifração proposta por Lévi-Strauss. Eles provam que, assim como na obra de Carybé, a moda afro-brasileira não é um acessório, mas uma ferramenta de coexistência que obriga o olhar ocidental a reconhecer a sofisticação e a técnica de uma cultura que por muito tempo foi relegada ao 'fluxo indistinto' do exótico.
Referências Bibliográficas:
AMADO, Jorge. Carybé. In: Coleção Cadernos do Recôncavo. Salvador: 1951.
BALOGUN, Ola. Forma e Expressão nas Artes Africanas. In: Introdução à cultura africana. Lisboa: Edições 70 / UNESCO, 1977.
LÉVI-STRAUSS, Claude. O Pensamento Selvagem. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1962.



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