A DUALIDADE: ANÁLISE SOBRE AS OBRAS DE WILLIAM BLAKE E HEINRICH FÜSSLI
- TARCILA GAMA

- há 6 dias
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1. INTRODUÇÃO
Para William Blake, a arte não se fragmenta em disciplinas, mas constitui-se como a "Arte" pura, uma atividade do espírito que transcende a matéria. Sua obra, frequentemente realizada em bico-de-pena e aquarela, busca um conhecimento intuitivo das forças eternas da criação, opondo-se à análise científica tradicional.

Na obra Newton, Blake não busca um retrato fidedigno do cientista, mas o representa simbolicamente como um herói ou titã que se condena à solidão. Ao focar exclusivamente na geometria e na matemática, Newton ignora a realidade vibrante da natureza sobre a qual se senta, fechando-se em um "quadrado" racional que renuncia à comunhão com o Universo.
Simultaneamente, Heinrich Füssli compartilha dessa visão antinaturalista, embora busque o "sublime" nas profundezas do sonho e do pesadelo, em vez das visões transcendentais de Blake. Ambos os artistas reconhecem a ciência como o eixo da nova cultura de sua época, mas a contestam para preservar o papel do artista como um ser excepcional capaz de acessar o que a racionalidade não alcança.

A resistência de Newton em olhar para o horizonte, preferindo o cálculo frio do compasso, encontra um paralelo teórico na psicologia analítica. Se para Blake a arte é a 'pura atividade do espírito' , para Carl Jung, essa mesma atividade é o que permite ao indivíduo confrontar seu Puer Aeternus. A análise que se segue busca entender como a criação artística de Blake e Füssli atua não apenas como estética, mas como um processo vital onde o autor vivencia seus problemas enquanto os retrata, evitando a repetição estéril apontada por Jung.
2. ANÁLISE SOB O OLHAR DA PSICOLOGIA E PSICANÁLISE
Embora as obras de Blake e Füssli precedam os estudos psicanalíticos, é possível estabelecer uma retórica sobre o olhar desses autores através de conceitos de Carl Jung e Sigmund Freud.
2.1 A Perspectiva de Carl Jung
A resistência de muitos artistas em relação à análise muitas vezes reside no medo de que sua criatividade seja limitada por explicações racionais. No entanto, como aponta Jung, a criatividade autêntica é resistente e capaz de superar neuroses através do ato de vivenciar o problema enquanto se cria. No contexto de Blake e Füssli, a obra funciona como um progresso contínuo de compreensão da psique, indo além da repetição cíclica dos poetas românticos que não ousavam vivenciar seus dilemas.
2.2 O Embate Teórico: Newton, Goethe e a Óptica
A oposição de Blake a Newton encontra eco na teoria das cores de Goethe. Enquanto Newton representa a ciência mecanicista focada em fenômenos isolados, Goethe e Blake defendem uma visão universal e fenomenológica. A crítica de Blake reside na postura intransigente da classe científica que transforma hipóteses em leis absolutas, limitando o avanço do saber e a liberdade da mente humana.
2.3 Warburg e Freud: O Rastro da Psique
Aby Warburg propõe que a psique deixa vestígios na história através de formas visuais, conceito que denominou como "fórmulas patéticas". Para Warburg, a análise da imagem exige um apoio duplo na psicologia e na etnologia. Freud, por sua vez, introduz a ideia do ser humano influenciado por desejos e impulsos, sugerindo que a contradição entre esses desejos e a vida em sociedade gera o tormento psíquico visível em obras como O Pesadelo de Füssli.
3. CONCLUSÃO: A MODA COMO SÍNTESE DAS FORÇAS PSÍQUICAS
As obras de Blake e Füssli não apenas ilustram a dualidade humana, mas servem como arquétipos para compreendermos como a expressão visual (seja na tela ou no corpo) manifesta os embates entre a norma racional (Newton) e a fenomenologia do espírito (Goethe). Essa dualidade transcende as molduras e encontra na Moda um campo de intersecção vital, onde a pintura, a escultura e a performance se fundem na construção do sujeito histórico e psíquico.
A moda não é apenas mercadoria; é a expressão das nossas emoções mais intensas em movimento. Ela traduz o que sentimos na alma para a linguagem das formas e tecidos, dando vida nova a símbolos e sentimentos que a humanidade carrega há séculos. Assim como a escultura molda o espaço e a pintura captura o imaterial, o design de moda esculpe a silhueta humana para externalizar o que está no âmago da psique. Se o Newton de Blake representa o enclausuramento na razão, a moda romântica e contemporânea frequentemente atua como o Pesadelo de Füssli: um espaço de transgressão onde o desejo e o trauma podem ser "vestidos" e, portanto, vivenciados.
A Intersecção como Libertação do Olhar
É imperativo notar que, quando estamos presos a uma visão estritamente funcional ou a um olhar balizado por preconceitos morais, perdemos a profundidade da experiência estética. Na moda, essa limitação reduz o traje ao seu valor de uso ou status social, ignorando seu papel como arte performática. Ao integrarmos a análise de Jung, percebemos que o ato de se vestir pode ser um confronto com o Puer Aeternus ou uma manifestação da Sombra, transformando o cotidiano em uma galeria viva de tensões humanas.
Portanto, a intersecção da moda com a pintura e a escultura não é meramente estética, mas existencial:
Pintura: A moda utiliza o corpo como tela para a teoria das cores e texturas que comunicam estados emocionais.
Escultura: O corte e a estrutura das peças desafiam a gravidade e a anatomia, tal qual a busca de Blake pela "Arte pura".
Ao libertarmos o olhar das amarras do julgamento comercial imediato, permitimos que a moda, em diálogo constante com as artes visuais, cumpra seu papel de investigação eterna sobre a condição humana. Ela é a prova de que a "atividade do espírito" de que falava Blake não está apenas no pincel, mas na coragem de externalizar a própria alma através da forma.
Referências Bibliográficas
ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução de Denise Bottmann e Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 35-36.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
GOETHE, Johann Wolfgang von. Doutrina das cores. Seleção e tradução de Marco Giannotti. São Paulo: Nova Alexandria, 1993.
JUNG, Carl Gustav. O desenvolvimento da personalidade. Petrópolis: Vozes, 1981.
WARBURG, Aby. A renovação da antiguidade renascentista: contribuições para a história cultural do Renascimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.
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